
Comecei este texto pelo final. A cada parágrafo via a necessidade de explicar um pouco mais do início e aí acabei fazendo um breve resumo da minha história e um pouco do que eu penso, tudo para explicar uma série de acusações que venho sofrendo.
Sempre tive um coração maior que o mundo. Tenho um amor contido que não sei bem explicar, mas que sempre esteve ali esperando por um dia em que eu pudesse fazer algo a mais pelas pessoas que eu sei que precisam do pouco que eu tenho.
Tudo começou no dia em que eu e meu marido resolvemos lançar uma campanha de Natal para ajudar comunidades carentes em 2008. Uma campanha chamada "Atitude". Esta campanha reuniu mais de 150 voluntários e atendeu mais de 9 comunidades, num total de 5 mil crianças que receberam brinquedos no Natal. A campanha foi um sucesso!
Ao contrário da sensação de "dever cumprido"que muitas pessoas relatam após ações solidárias, o meu sentimento de ajudar só aumentou. Daí nasceu a idéia de um programa de Tv com esta finalidade: ajudar comunidades carentes. Nossa forma de ajudar seria colocar as necessidades de cada comunidade no ar, pedindo o apoio dos telespectadores. Tínhamos a idéia de que muitas pessoas querem ajudar mas não sabem como, daí serviríamos como elo, veículo que ligaria essas pessoas (doadores) a pessoas que precisam de apoio, seja para manter escolinhas comunitárias, projetos culturais em benefício das comunidades, creches, etc.
Aí foi o "X" da questão, talvez o nosso "erro" - mas que eu cometeria novamente e quantas vezes forem necessárias por não entender desta maneira. Foi que este modelo é frequentemente utilizado por candidatos à campanhas políticas, prestes a entrar em campanha eleitoral.
É claro que tenho minhas preferências políticas, assim como você ou qualquer pessoa com um mínimo de discernimento social. Sou adepta ao modelo socialista de gestão (não o socialismo de Cuba, do isolamento e do modelo duro de gestão econômica, mas do socialismo democrático que abraça a todos visando sempre o bem da maioria).
Desde que cheguei a conclusão de que o mundo como está só tende a piorar, passei a enxergar as pessoas de outra forma. Passei a observar a violência silenciosa do Estado, não do Estado enquanto Governo, do Estado enquanto instituição que desde há muito não prioriza políticas públicas voltadas para a nossa enorme população de baixa renda. A violência silenciosa que exclui, que marginaliza que não pune a desigualdade, que encara como "fatalidade" os números do IDH, ou como "consequencias do sistema" o enorme número de analfabetos...
Como conviver tão insensivelmente com essas pessoas que, como nós, foram criadas à imagem e semelhança de Deus, mas que sequer tem um chão para morar, um pano para se cobrir ou até um nome que a torne legítima cidadã do Estado brasileiro???
Ingenuamente, embarquei no Atitude certa de que ajudaria muita gente e que, no mínimo, esta seria uma excelente idéia, que possibilitaria tantas pessoas propensas a ajudar a chegarem aos locais que tanto precisam. O programa Atitude é um sonho, talvez também o de muitas das quase 10 mil pessoas que já foram beneficiadas por este programa, que está no ar desde março de 2009.
As críticas quanto às supostas "segundas intenções" do Atitude começaram desde o PRIMEIRO DIA em que o programa foi ao ar (28/03/2009), mas se intensificaram em razão da proximidade das eleições, e tendem a piorar conforme chegue mais perto da campanha.
Por isso resolvi colocar por escrito, tornar público e acessível a todos e a qualquer pessoa com este "receio", que NÃO SOU CANDIDATA A NENHUM CARGO ELETIVO EM 2010, que nunca pensei no Atitude com esta intenção, que este programa é um sonho que se realiza aos poucos, que me faz chorar a cada matéria que me arranca as lágrimas por simplesmente não me conformar com a dura realidade que tantos fecham os olhos ou que simplesmente ignoram por se sentirem pequenos diante de tantos problemas. Eu digo: não somos tão pouco como imaginamos. Se quisermos, podemos modificar o pensamento dentro da nossa casa, e depois dos nossos amigos e assim por diante, até alcançarmos, cada um de nós, a consciência necessária para termos a certeza que com pequenas atitudes o mundo melhora, muito.
Não ambiciono o poder pelo poder. Quero o poder de levar ajuda a quem precisa através do meu programa, só isso. E esse é um ponto que me intriga muito: por que tanta briga pelo Poder? Vejo diariamente nos noticiários e me pergunto qual a importância do Poder distante dos interesses do povo??? Poucos que hoje detêm o poder o exerce realmente em nome dos que precisam.
É preciso haver uma revolução inteligente, uma revolução do futuro, tão silenciosa quanto a violência institucionalizada... A mídia prega um distanciamento cada vez maior dos livros, a cultura diz que toda revolução é marginal, isso não é verdade. Temos poder!
O verdadeiro poder está nas nossas mãos, nós decidimos quem pode ou não nos representar. Podemos não eleger quem tantas vezes já foi eleito, quem tantas vezes teve a chance de fazer e não fez!
O poder é uma força quem nem sempre vem revestida de honras de Estado, termos de posse e diplomações. Também tem "poder" quem tem adesão do povo, das grandes massas. Tem poder quem congrega multidões ao seu favor, quem reúne um número expressivo de seguidores que vêm espontaneamente, simplesmente por acreditarem nas suas idéias ou por compactuarem com a sua causa, com um amor próprio de quem se identifica com os sentimentos de um líder. O Poder de um cargo público nem sempre vem acompanhado do amor do povo.
Não é o dinheiro que compra o afeto das pessoas. O dinheiro é necessário a quem tem fome, mas não conquista o carinho, a admiração.
O dia-a-dia, a rotina, os testes diários de convivência com o povo me dão a certeza de que o verdadeiro líder não é aquele que ESTÁ ou que QUER ESTAR no Poder, é aquele que traz consigo o apoio popular. Nada mais importa.
Tudo o que disse foi com o único intuito de reforçar que não ambiciono esse poder institucional porque para mim o verdadeiro poder é poder ser este veículo de ajuda e saber que tantas pessoas esperam por mim todo dia, em tantos lugares. Às vezes elas só querem estar perto, sem nada em troca, só por sentirem que estão seguras, pois estão ao lado de alguém que sofre junto com elas.
Uso das palavras de Che Guevara para reforçar meu pensamento:
Deixe-me dizer, mesmo com o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado pelos grandes sentimentos de amor. É impossível pensar num revolucionário autêntico sem esta qualidade. (...) É preciso ter uma grande dose de humanismo, de sentimento de justiça e de verdade para não cair em extremismos dogmáticos, em escolasticismos frios, em isolamento das massas. É preciso lutar todos os dias para que esse amor à humanidade viva se transforme em atos concretos que sirvam de exemplo e mobilizem. (El socialismo y el hombre en Cuba, 1988).